#3 Óculos sujos

“Ó!”, alguém me diz. Estão exigindo de mim uma observação detalhada do palmo à minha frente. Mas como fazê-lo usando lentes tão sujas?

Não tá fácil, tá desafiador, tá incômodo. Essa mistura de poeira, resíduos oculares, impressões digitais e sabe o que mais é o primeiro percalço do dia; como carpe diem com óculos sujos? Como enxergar a vida bela com essa aberração diária, que me atormenta mesmo quando esfrego um lenço em sua cara a cada bendita hora?

Só pode estar de arte, mesmo.

Talvez essas lentes míopes sejam uma simples e atrevida obra pontilhista. Talvez apenas queiram ser apreciadas e elogiadas, por isso teimam em se expor para minhas retinas. Mas cuidado, queridas lentes: pode até parecer que minhas retinas deram um passo avante, que querem se aproximar, que enfim corresponderam a suas investidas; porém, sinto dizer que, na verdade, meus olhos é que são mais compridos. As retinas não se deslocaram avante, para a infelicidade de suas ilusões.

Então, por favor, deixem-me em paz. Aceitem, pelo menos, o status de limpas. Não queiram ser hipsters só para defender a eterna sujeira das lentes porque sim. Porque não.

Minha última tentativa de limpá-las. Descrente, passo o lenço de papel mecanicamente sobre elas.

Ó! Se ser dona de óculos limpos foi uma vez utopia, agora é real… As lentes finalmente me obedeceram! O mundo ficou nítido, à minha disposição para uma observação detalhada…

Mas ó! Agora consigo ver que os seus óculos estão sujos!

.Anna Chiara.