#3 Óculos sujos

“Ó!”, alguém me diz. Estão exigindo de mim uma observação detalhada do palmo à minha frente. Mas como fazê-lo usando lentes tão sujas?

Não tá fácil, tá desafiador, tá incômodo. Essa mistura de poeira, resíduos oculares, impressões digitais e sabe o que mais é o primeiro percalço do dia; como carpe diem com óculos sujos? Como enxergar a vida bela com essa aberração diária, que me atormenta mesmo quando esfrego um lenço em sua cara a cada bendita hora?

Só pode estar de arte, mesmo.

Talvez essas lentes míopes sejam uma simples e atrevida obra pontilhista. Talvez apenas queiram ser apreciadas e elogiadas, por isso teimam em se expor para minhas retinas. Mas cuidado, queridas lentes: pode até parecer que minhas retinas deram um passo avante, que querem se aproximar, que enfim corresponderam a suas investidas; porém, sinto dizer que, na verdade, meus olhos é que são mais compridos. As retinas não se deslocaram avante, para a infelicidade de suas ilusões.

Então, por favor, deixem-me em paz. Aceitem, pelo menos, o status de limpas. Não queiram ser hipsters só para defender a eterna sujeira das lentes porque sim. Porque não.

Minha última tentativa de limpá-las. Descrente, passo o lenço de papel mecanicamente sobre elas.

Ó! Se ser dona de óculos limpos foi uma vez utopia, agora é real… As lentes finalmente me obedeceram! O mundo ficou nítido, à minha disposição para uma observação detalhada…

Mas ó! Agora consigo ver que os seus óculos estão sujos!

.Anna Chiara.

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#2 Keep fallin’ on my head

Chove. Há horas e há dias. Não para de chover.

Quando estamos em casa, debaixo das cobertas, é fácil romantizar a chuva; o barulho das gotas no telhado é uma canção de ninar, o cheiro da terra molhada lá fora é cativante, a água desfilando pelo vidro da janela é uma musa inspiradora…

Mas, quando estamos fora de casa em dias molhados como o de hoje, a coisa não é tão perfeita como na ficção. Geralmente, é um desastre desde o momento em que você coloca os pés na calçada. Você deve esquecer, de cara, a ideia de manter o cabelo arrumado e brilhoso, porque as gotinhas certamente vão tratar de sapecar seus fios bem cuidados. Depois da sessão-cabeleireiro, vem a sessão-sapateado: as calçadas da cidade são tão antiderrapantes que você precisa andar a passos de pinguim se quiser poupar suas calças de um banho de água & lama. Mesmo com esse cuidado, você ainda não está necessariamente seguro; sobretudo quando, no único segundo de distração sua, você pisa em uma poça que lhe faz o serviço de lavanderia (sem secagem, claro). Ou, ainda mais irresistível, quando um carro vira irrigador de plantação e te cumprimenta com uma ducha gelada. Legal.

Questões envolvendo guarda-chuvas merecem um estudo à parte. Mas resumindo: são muito traiçoeiros. Um guarda-chuva pode aprontar mil e uma sacanagens em um só dia. Ele pode emperrar e não abrir; pode quebrar de uma vez; pode virar do avesso com qualquer mínima rajada de vento (e esse é o momento que mais odeio); pode, também, brigar com outro guarda-chuva, ou pior, avançar as garras no rosto de alguém que passa do seu lado. Você, inclusive, pode ser a vítima dessas garras.

Esse objeto traiçoeiro faz inúmeras coisas, menos uma – te proteger da chuva.

E é após um longo e insuportável dia chuvoso que você chega a seu lar com um louco desejo de atirar para longe os sapatos que, agora, mantêm seus pés imersos em litros de água. Sentindo-se molhado, cansado e feio, você se refugia nas cobertas. A chuva continua, mas você finalmente a perdoa. Ela lhe conta uma historinha para dormir, e a vida volta a ser ficção. Mas só até as seis da manhã.

.Anna Chiara.